Selecione o próximo artigo que desejar ler
![]() |
Visualidade e
surdez: a revelação do pensamento plástico |
|
|
||
| O pensamento
visual dependente da visão, canal sensorial predominante na atividade
comunicativa dos surdos, lhes permite superar limitações de
ordem auditiva para construir seu conhecimento de mundo, relacionando linguagem,
imaginação e realidade. O obstáculo sensorial auditivo cria situações comunicativas específicas para o surdo, porém, não o impede de adquirir uma linguagem, nem o desenvolvimento da sua capacidade de representação. Porém, tal processo envolve mecanismos mentais, também diferentes daqueles da pessoa ouvinte e, por isso, tornam-se responsáveis pela construção de esquemas de pensamento e estratégias intelectivas que dependem da natureza do desenvolvimento lingüístico-cognitivo que lhes é próprio. O desenvolvimento lingüístico e cognitivo é, portanto, que define o uso de estratégias intelectivas e de esquemas de pensamento característicos. Isto significa dizer que as representações simbólicas do mundo construídas pelo ser humano dependem dos seus canais sensoriais, isto porque são eles que definem as condições disponíveis de modalidade de entendimento, de linguagem e de comunicação com o meio. O fato de o surdo se vir impossibilitado de adquirir língua oral espontaneamente faz com que ele apreenda o mundo pela visão, encontrando na Língua de Sinais, a modalidade visual-gestual de língua natural (que não oferece nenhum obstáculo sensorial) para se inserir no mundo em que vive e a partir daí organizar o raciocínio e desenvolver seus processos cognitivos. A partir de processos visuais, o surdo pode, então, estruturar comunicação, imagem e língua, ordenando a experiência através do uso da forma. Portanto, podemos dizer que o surdo cria conceitos visuais, tratando a forma como resultado de um ato específico de elaboração e invenção de esquemas de pensamento. Isto, segundo Francastel (1990 e 1993), é denominado de pensamento plástico, ou seja, um pensamento que decorre de um conhecimento fundamental, que atravessa idéias e comportamentos através de uma linguagem. Tal linguagem existe através de imagens e representações mentais que informam a percepção da realidade de acordo com características intelectivas próprias. De acordo com esta idéia, podemos considerar que trabalhos plásticos de pessoas adultas surdas severas e profundas podem servir de objeto para a investigação acerca da natureza das suas imagens internas. O estudo destas obras pode-nos fazer aproximar do seu conhecimento e dos princípios que utilizam para expressar o pensamento plástico, e, portanto, nos pode informar sobre as percepções e comportamentos cognitivos espontâneos. Curiosamente, a análise de desenhos de pessoas surdas mostra muito intensamente a valorização da imagem enquanto função de linguagem, isto é, a imagem como representação, expressão e comunicação do pensamento. Tal fato é demonstrado, pela enorme força e poder comunicativo das obras que produzem (Figs. 1 e 2). Portanto, visualidade parece representar, para a pessoa surda, o principal canal de processamento de esquemas de pensamento, por ser capaz de propiciar naturalmente a aquisição, construção e a expressão de conhecimento, valores e vivências, que de outra maneira seriam incomunicáveis. O fato de os trabalhos artísticos de surdos revelarem princípios que indicam a existência de um pensamento plástico particularizado nos informa sobre a força de uma concepção específica de mundo, mostrando que a imagem simbólica e o signo visual são, sem dúvida, o meio principal de comunicação, que lhes serve como suporte e esquema para a interação sócio-cultural. Por isso, as pessoas surdas demonstram, em suas obras uma vasta riqueza de símbolos, canalizando uma enorme quantidade de informações através de formas que condensam significado e representações da essência de suas idéias. Estas manifestações são altamente comunicativas por carregarem conhecimentos e abstrações mentais através de representações que, muitas vezes, se expressam em imagens de aspecto figurativo (apresentação de características e valor dos objetos) e simbólico (Fig. 3). Podemos afirmar, então, que a expressão artística de surdos parece servir-lhes de meio para veicular símbolos através de uma linguagem formal plástica, porque possibilita a articulação visível do pensamento e da experiência através da coordenação e subordinação inteligente de figuras, ou seja, de imagens interiores. |
||
![]() |
![]() |
![]() |
| Fig.1 - Desenho sobre
o tema: Egito Valorização do conhecimento
presença de detalhes. *Material produzido pelo aluno informante surdo, sem conhecimento de uma língua particular. |
Fig.2 Desenho sobre o tema:
Idade Média Riqueza de detalhes organizados em
uma cena total. *Material produzido pelo aluno informante surdo, sem conhecimento de uma língua particular. |
Fig.3 Desenho
sobre o tema: Barroco Riqueza de símbolos. *Material produzido pelo aluno informante surdo, sem conhecimento de uma língua particular. |
|
Isto
quer dizer que o surdo pode partir de estruturas próprias de pensamento
plástico, organizadas previamente, para buscar formas específicas
de representação, realizando experimentos para compor e
recompor os elementos de que dispõe. Com isto ele se torna apto
a ordenar sua capacidade de expressão e procurar resultados dentro
de um sistema baseado na escolha de princípios visuais apropriados
ao seu funcionamento cognitivo espontâneo. Desta
forma, as mensagens visuais transmitidas pela pessoa surda parecem conter
uma organização visual própria à sua compreensão
e ao seu funcionamento lógico natural, materializados no uso de
técnicas e nos instrumentos da composição visual. |
||
![]() |
![]() |
![]() |
|
Fig.4
Desenho sobre o tema: Pré-História
Composição explicativa e descritiva.
|
Fig.5 Desenho sobre
o tema: Suméria
Composição descritiva de clareza comunicativa. *Material produzido pelo aluno informante surdo, sem conhecimento de uma língua particular. |
Fig.6 Desenho espontâneo
sobre o tema: Casa Presença de simultaneidade, imaginação e multiplicidade de visões de planos espaciais. *Material produzido pelo aluno informante surdo, sem conhecimento de uma língua particular. |
![]() |
Fig.7 - Desenho espontâneo
sobre o tema: Sexualidade Conjugação de
pontos de vista. *Material produzido pelo aluno informante surdo, sem conhecimento de uma língua particular. |
|
|
Significante
e significado parecem constituir uma só realidade mental, intraduzíveis
e concebidos sinteticamente em estruturas visuais. Através de uma
linguagem não-verbal, o surdo cataliza processos vitais de emoção
e sensação para representar o mais concretamente possível
a experiência. |
||
![]() |
![]() |
![]() |
|
Fig.8
Desenho espontâneo sobre o tema: Casa
Apresentação de conhecimentos e operações
mentais em detrimento da representação convencional do espaço
visível que inclui as relações de grandeza entre
os objetos.
*Material produzido pelo aluno informante surdo, sem conhecimento de uma língua particular. |
Fig.9
Desenho espontâneo sobre o tema: Casa
Conjugação de pontos de vista, fragmentação
do
espaço e simultaneidade de planos. *Material produzido pelo aluno informante surdo, sem conhecimento de uma língua particular. |
Fig.10 Desenho sobre
o tema: Egito Associação entre o pensamento
plástico e o lingüístico utilização
da imagem associada à escrita ideográfica.
*Material produzido pelo aluno informante surdo, sem conhecimento de uma língua particular. |
|
Fig.11 Desenho sobre
o tema: Idade Moderna Inventividade e apresentação
de riqueza de informações.
*Material produzido pelo aluno informante surdo, sem conhecimento de uma língua particular. |
![]() |
|
|
Assim, o pensamento da pessoa surda é dependente das imagens não só para expressar, mas para existir. Cada imagem relaciona alguma coisa com outra, estabelecendo sucessivas relações. Cada imagem se movimenta, amadurece e se desenvolve, desempenha uma função, soluciona um problema. Este fluxo de imagens acontece como tipo de linguagem-vida interior. De
maneira geral, esta habilidade visual intensa que o surdo dispõe
para desenvolver seu pensamento, parece sustentar os aspectos formais
da linguagem plástica que são revelados em suas obras. O
fato de o surdo utilizar a linguagem visual para expressar sua lógica
e sua visão abstrata do mundo condensa, em suas obras, relações
conceituais de alto grau de esquematização, em um sistema
de representações que comunicam uma concepção
particularizada da realidade.
Desta forma, podemos dizer que o surdo confere às imagens que produz uma forma que se identifica inteiramente com elementos presentes em seu pensamento. Para o surdo, a imagem deve aparecer na obra como o instrumento necessário para evocar e pensar sua experiência. Através dela, estabelece modificações e transformações cognitivas, manipulando estruturas mentais. A obra é o próprio pensamento. O pensamento é a obra. Assim, se o surdo tem uma imensa capacidade para lidar com as imagens como um amplo sistema de significantes e significados simbólicos, ou seja, de combinações de formas e de conceitos, formando um pensamento representativo próprio, então a representação visual desempenha para ele uma função essencial na confrontação de experiências e na construção de modelos de raciocínio, formulando a união entre interpretação, imaginação e experiência visual direta. Conseqüentemente, é possível afirmar-se que as funções de linguagem nos surdos desenvolvem-se, basicamente, através da estruturação de imagens de conhecimento. Se as imagens se apresentam para o surdo como um sistema de significantes que lhe serve para esquematizar a realidade, então pode também conduzi-lo à interpretação e compreensão mais precisa de regras, num sentido orientado, como no caso da aquisição da Língua de Sinais e da língua escrita. A imagem pode ser para o surdo, tal como a palavra o é para o ouvinte, a expressão de conteúdos semânticos. A visualidade pode levar o surdo a desenvolver conhecimentos específicos, dependentes de regras e funções pragmáticas pertencentes tanto ao pensamento plástico quanto ao pensamento lingüístico (Fig. 10). Todos estes dados nos levaram a considerar que a pessoa surda detém muitas qualidades cognitivas decorrentes do uso do pensamento visual, como, por exemplo, a habilidade de combinar imagens e conceitos, para construir e assimilar conhecimento. A imagem é, portanto, a linguagem fundamental para o surdo, a forma e o meio mais completo de verificação perceptiva e de representação, desempenhando a função essencial na reflexão e na elaboração de estratégias de pensamento e ação. Em termos gerais, podemos dimensionar a importância da utilização da imagem, ou seja, das linguagens artísticas visuais (foto, desenho, modelagem, escultura, pintura etc.) na construção da subjetividade pela pessoa surda. A comunicação visual ocupa, neste caso, o papel principal de mediação e sistematização de informações, compreendendo a expressão pessoal, a observação e a capacidade crítica. A
linguagem visual pode assegurar ao surdo o equilíbrio entre as
operações do pensamento e a expressão de idéias.
Por isso, observamos com freqüência, nos trabalhos plásticos
dos surdos, a externalização de abstrações
mentais através da simplificação de formas depuradas
até os elementos básicos dos esquemas visuais que contróem
em suas mentes. Os
surdos parecem criar, sistematicamente, imagens que significam um real
desafio à construção e à inventividade do
seu conhecimento (Fig. 11). O uso da visualidade como linguagem-pensamento
faz o surdo ultrapassar, em suas obras, a assimilação de
informações e o raciocínio concreto para atingir
a imaginação criativa e a capacidade de utilizar conhecimentos
formais como referência de sua ação e participação
na cultura e na tradição da comunidade. Revista Espaço nº 12 dezembro de 1999 INES - MEC |
||
"Visualidade e surdez:a revelação do pensamento plástico" por Carla Verônica Machado Marques
"Mudando as regras do jogo" por Thomas Bakk
"Jogos Gigantes" por Júnyor Palhares
"O Jogo na Construção da Linguagem" por Andreia Passos Ferreira